Junto à minha rua havia um bosque Que um muro alto proibia Lá todo balão caia, toda maçã nascia E o dono do bosque nem via. Do lado de lá tanta aventura E eu a espreitar na noite escura A dedilhar essa modinha A felicidade morava tão vizinha Que, de tolo, até pensei que fosse minha. Junto a mim morava a minha amada Com olhos claros como o dia Lá o meu olhar vivia De sonho e fantasia E a dona dos olhos nem via. Do lado de lá tanta ventura E eu a esperar pela ternura Que a enganar nunca me vinha Eu andava pobre, tão pobre de carinho Que, de tolo, até pensei que fosse minha Toda a dor da vida me ensinou essa modinha
"Até pensei" - Chico Buarque de Holanda
(PS: Retribuindo uma delicadeza vinda diretamente de Paris, de um "incorfomado" ex-vizinho.)
Talvez um dos versos mais inspirados de Lulu Santos seja “tudo o que cala fala mais alto ao coração”.
Pois, de vez em quando, me deparo com essas situações.
Curioso que hoje me senti assim, ao ver, pela segunda vez, UP – Altas Aventuras (Walt Disney), no cinema, junto com a minha avó e a Marina.
Não sei se foi por já saber o que se passaria, mas tive maior atenção nas sutilezas e simbologias presentes no filme, que, entre outras coisas, relata a transformação de um idoso (aparentemente) "rabugento", por influência de uma criança e de seu amor "do passado".
Não sei se porque estava com a minha avó, também idosa, imaginando no que o filme a provocaria de emoções, especialmente por ser ela uma viúva de um amor verdadeiro e eterno.
Não sei se porque tive muitas saudades do meu avô, por vê-lo ali retratado, não pela rabugice, mas pela lembrança dos sinais de amor “explícito” que ele sempre revelou em vida (no caso pela avó que sentava ao meu lado na sessão).
Não sei se porque lamentei por não ter vivido um amor como o deles, do tipo “felizes para sempre”.
Enfim.
O fato é que, por vezes, senti arrepios pelo corpo e me vi às lágrimas durante a sessão, com a impressão de que gostei muito mais hoje do que na primeira vez, saindo absolutamente sem palavras do cinema, pois que preenchida pelas falas mudas e diretas ao coração.
Outro dia, transcrevi aqui o que um novo amigo, Arleo, me disse sobre como gostava de delicadezas. E estou com ele: num mundo tão desencanado dessas coisas, quando vemos um mergulho criativo em prol da sensibilidade e da delicadeza, temos mesmo que sair assim, calados de paixão, ou como mamãe gosta de dizer: “com um grito parado no ar”, pela contemplação do belo, pela chamada "epifania".
Muitos verão UP pelo seu lado de humor e aventura surreal, reconhecendo-o como um ótimo filme infantil. Afinal, não fosse a semelhança com a recente história do “padre baloeiro”, como imaginar que alguém poderia levar sua casa amarrada em balões de gás para o outro lado da América e encontrar-se com cachorros falantes?
Mas, o filme é maduro e cala pelo apontamento sutil e delicado dos dramas pessoais dos personagens e pelo poder de suas transformações e compensações, seja pela influência mútua que vem da amizade, apta a preencher os vazios da alma, seja pela desvinculação de preconceitos (idoso x criança), seja pela compreensão de que o amor verdadeiro e eterno realmente transcende e pode transformar e estimular o ser “amado para sempre” a seguir em frente, para novas e “altas aventuras”, mantendo-se vivo no reflexo da felicidade que ele puder sentir.